Ele concordou e balbuciou a seguinte frase, que me levou a escrever
este artigo. "Tenho medo de cobrar mais do que os meus
colegas. Eles ficariam com inveja, falariam mal de mim, seria
um inferno."
No
Brasil, a maioria dos empregados e profissionais no fundo tem
medo de pedir um aumento de salário ou de cobrar mais
caro. Cobrar mais significa criar um cliente mais exigente,
que irá reclamar toda vez que o serviço não
corresponder ao preço. Cobrar menos é sempre a
saída mais fácil, dá muito menos problemas,
menos reclamações, como no meu caso. É
preciso ter coragem para cobrar mais e assumir as responsabilidades
inerentes. A maioria prefere o comodismo e a mediocridade do
"preço tabelado". Só que, se cobrar
o mesmo que os colegas menos competentes, você estará
roubando clientes deles, e é isso que cria inveja e maledicência.
Você estará fazendo "dumping profissional",
estará sendo injusto com eles e consigo mesmo.
Eu
sei que é difícil cobrar mais caro, mas alguém
tem de dar o exemplo, mostrar aos outros profissionais o caminho
da excelência, implantar novos padrões, como pontualidade,
por exemplo. Você será o guru da nova geração,
e a inveja que terão de seu novo preço fará
com que eles passem a copiá-lo. E, à medida que
seus colegas se aprimorarem, sua vantagem competitiva desaparecerá
e você terá de reduzir o preço novamente
ou então melhorar ainda mais seus serviços.
Somos
essa sociedade atrasada porque, entre nós, cobrar caro,
ganhar mais do que os outros é malvisto pelos nossos
intelectuais, políticos, líderes religiosos e
professores de sociologia. O paradigma de sucesso deles é
cobrar pouco. Melhor ainda seria não cobrar, oferecendo
de graça ensino, saúde, segurança, cultura,
aposentadorias, remédios, comida, dinheiro, enfim. De
graça, o povo não tem como reclamar dos péssimos
serviços, os alunos desses professores não têm
como criticar as péssimas aulas. "De cavalo dado
não se olham os dentes." Se alguma coisa a história
nos ensina é que o "tudo grátis" traz
consigo a queda da qualidade dos serviços públicos,
a desvalorização do serviço, o desprezo
pelo povo nas filas, a exclusão social, a corrupção
e a desmoralização de todos os envolvidos.
O
programa Bolsa Escola foi criado no governo do PSDB como uma
forma inteligente de incentivar as mães a manter os filhos
nas péssimas aulas do ensino público. Quando o
estímulo deveria ser aulas interessantes a que nenhum
aluno curioso iria faltar. Nós administradores já
descobrimos há tempos que refeições grátis
para funcionários não são valorizadas,
e a qualidade despenca. Por isso, cobramos algo simbólico,
10% a 20% de seu valor. Se o ensino fosse cobrado, em pelo menos
10% do valor, teríamos pais de alunos reclamando do péssimo
ensino público e gerando pressão por melhoria
e redução de custos. Dizer que nem isso dá
para pagar é mentira – 10% não chegariam
a 20 reais por mês. Tem muito pai que faria trabalho extra
pelo orgulho de saber que foi ele quem custeou a educação
dos filhos, e não a caridade estatal. Se temos falta
de recursos em educação, por que não cobrar
pelo menos 10% do valor? Seria falta de coragem ou simplesmente
vergonha?
Precisamos
mudar a mentalidade deste país, uma mentalidade que incentiva
a mediocridade, e o medo de cobrar pelos serviços, por
óbvias razões. Se você acha que cobrar caro
e ficar rico é politicamente incorreto, como muitos professores
têm ensinado por aí, doe o adicional pelo meu site
www.filantropia.org ou então passe a trabalhar menos,
volte para casa mais cedo e curta sua família. Mas não
faça a opção pela pobreza, não tenha
medo de cobrar cada vez mais. Caso contrário, continuaremos
pobres e medíocres para sempre.
Stephen
Kanitz é formado pela Harvard Business School (www.kanitz.com.br)
Fone:
Editora Abril, Revista Veja, edição 1979, ano
39, nº 42, 25 de outubro de 2006, página 28
|